A PRESENÇA DO PENSAMENTO DE MARTIN HEIDEGGER NO DEBATE TEÓRICO RECENTE DA GEOGRAFIA ANGLÓFONA: UM ESFORÇO DE SÍNTESE.

Resumo: O projeto procura desenvolver uma pesquisa sobre a assimilação do pensamento do filósofo Martin Heidegger no debate teórico recente na Geografia, problematizando, para tanto, especificamente o caso da geografia anglófona.

O objetivo básico do projeto consiste, assim, em sistematizar os atributos que podem ser destacados como mais significativos do modo com o qual o pensamento do filosófo é redimensionado, nas últimas duas décadas, como uma fonte privilegiada para fazer avançar o debate teórico recente na geografia.
De fato, o “nicho” bibliográfico em tela manifesta de modo inequívoco - desde meados da década 1990 e, de modo saliente, a partir do início dos anos 2000 – um forte impulso de retomada do diálogo com a obra do filósofo, que assume matizes sensivelmente distintos daqueles que originariamente o atrelaram, na historiografia da geografia moderna, à emergência de uma matriz fenomenológica da geografia humanista que se desenvolveu entre as décadas 1960 e 1970, a reboque das contribuições seminais de Edward Relph; Anne Buttimer; J. Nicholas Entrikin, principais expoentes do “grupo estadunisense” de incorporação do pensamento de Heidegger à geografia (Marandola Jr., 2010).

O foco da presente pesquisa especificamente em relação à geografia anglófona reflete, fundamentalmente, a constatação de uma efetiva (re) valorização que o pensamento de Heidegger tem conhecido recentemente em trabalhos desenvolvidos em língua inglesa, como atestam as contribuições de ELDEN (2000; 2001a; 2001b; 2001c; 2003; 2005a; 2004; 2005b; 2006); JONES (1999); JORONEM, (2008; 2010; 2011; 2012); SHAW (2013); Dewsbury (2000; 2003; 2010) Escobar (2007); Marston et al. (2005); Mould (2009); Ploger 2010; Schatzki (2007); Strohmayer (1998).

O diálogo com o pensamento de Martin Heidegger nestes trabalhos recentes em língua inglesa, acima indicados, distingue-se sensivelmente daquele que caracterizou sua assimilação primeva no âmbito da Geografia humanista nas décadas de 1960 e 1970, manifestando escopos os mais diversificados, que vão desde o procedimento usual de recorrer à concepção de espaço desenvolvida na obra do filósofo (Elden, 2003); à problematização de temas específicos, como no caso de uma concepção “heideggeriana” do fenômeno da globalização “ (Joronem, 2008; 2010; 2011; 2013); passando pelo recurso de noções da obra do filósofo que são entrevistas como fecundas para liberar insights acerca da concepção de espaço, como no caso da noção de “evento” (Ereigns, no original em alemão, usualmente traduzido para o inglês como “event”) e que suscita, até mesmo, a constituição do que se poderia reconhecer enquanto um novo paradigma, a saber, a “evental geography”, isto é, uma geografia do evento (Shaw, 2012; Dewsbury, 2010; Elden, 2005b; Escobar, 2007; Joronen, 2010; Martson et al. 2005; Mould, 2009; Ploger, 2010; Schatzki, 2007; Strohmayer, 1998).

Uma amostra pontual do caráter inovador das abordagens que o pensamento de Heidegger tem conhecido no bojo desses trabalhos recentes da geografia anglófona, pode ser observado através da contribuição de Stuart Elden, notadamente pela perspectiva de problematização que procurou desenvolver através da convergência entre o pensamento de Heidegger e o pensamento de Karl Marx, mediatizado por uma releitura da obra do filósofo marxista Henri Lefebvre, verdadeiro cânone da geografia radical marxista. No artigo intitulado “Entre Marx e Heidegger:Política, Filosofia e ‘A Produção do Espaço de Lefebvre” (publicado no periódico “Antipode”, marco da difusão do pensamento marxista na geografia), Stuart Elden propõe que:

"O trabalho de Heidegger é extremamente importante para o entendimento do projeto intelectual de Lefebvre. Sugere-se que o trio de pensadores [Hegel, Marx e Nietzsche] que influenciaram Lefebvre é [o mesmo] partilhado por Heidegger. (...).

Há diferenças – muitas – entre Marx e Heidegger, mas, para Lefebvre, os dois são essenciais. Como bem notaram Kofman e Lebas, Heidegger foi o filósofo do século XX em quem Lefebvre mais se engajou. D. Harvey sugeriu que uma combinação entre Marx e Heidegger é uma área promissora para futuros trabalhos quando argumentou sobre a “possibilidade de alguma forma concatenar a concepção marxista e heideggeriana dentro de um novo tipo de política radical”. Esses insights e possibilidades continuam pouco desenvolvidos na literatura. [...].

Assim, podemos sugerir que a obra de Lefebvre demonstra a possibilidade de um heideggerianismo de esquerda. [...]. Lefebvre pode, portanto, ser beneficamente lido no nível político e filosófico entre Marx e Heidegger" (Elden, 2004).

Trata-se de uma abordagem sensivelmente distinta daquela usualmente dispensada ao pensamento de Heidegger no bojo da Geografia humanista que emergiu nas décadas de 1960 e 1970, que, em geral, estabeleceu um padrão de codificação do pensamento deste filósofo na teoria da geografia restringindo-o enquanto fonte de orientação acerca do método fenomenológico, ao lado de filósofos como Husserl; Merleau-Ponty e J-Paul Sartre. Nesse sentido, a heterogeneidade de abordagens que o pensamento de Heidegger tem conhecido no debate teórico desenvolvido na geografia em língua inglesa nas últimas décadas, oferecendo perspectivas que se poderiam considerar inauditas do diálogo com sua, justifica a realização de uma pesquisa dedicada a realizar um esforço de síntese dos principais atributos que tem caracterizado a assimilação recente do pensamento de Heidegger debate teórico recente da geografia anglófona.

Caberia, ainda, salientar que a pesquisa proposta no presente projeto se justificaria, outrossim, quando se observa que as contribuições e autores que integram esse novo momento de valorização do pensamento de Heidegger na geografia anglófona permanecem ausentes no âmbito dos trabalhos dos geógrafos brasileiros que, tributários da perspectiva da geografia humanista, problematizam explicitamente as possibilidades que o pensamento do filósofo pode oferecer à geografia (Holzer, 1992; 2010; Marandola Jr, 2005; 2011).

Do exposto, a abordagem que se propõe dispensar sobre o tema é estimulado a partir de um leque limitado de questões básicas, dentre as quais destacam-se: Quais os principais atributos do pensamento de Heidegger que se destacam no bojo das contribuições que visam, através da explícita filiação à sua obra, avançar o debate teórico na geografia anglófona recente? Existe um sentido prevalente no modo com o qual se efetiva a assimilação do pensamento de Martin Heidegger no debate teórico atual conduzido no referido nicho bibliográfico? A partir dos parâmetros intrínsecos ao pensamento de Martin Heidegger, quais os características passíveis de serem destacados como restritivas no modo com o qual sua obra tem sido assimilada no debate recente levado a cabo pela geografia anglófona? Quais as principais diferenças e semelhanças - em relação à assimilação do pensamento de Heidegger - vigentes entre o debate teórico recente na geografia anglófona e a geografia humanista desenvolvida por geógrafos brasileiros?

Data de início: 2013-05-20
Prazo (meses): 48

Participantes:

Papelordem decrescente Nome
Aluno Mestrado Josimar Monteiro Santos
Coordenador Luis Carlos Tosta dos Reis
Acesso à informação
Transparência Pública

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