The landscape hierarchy: geographical synthesis

Summary: Os fundamentos teórico-metodológicos para este projeto de pesquisa apóiam-se em três abordagens, todas elas, de certa forma, sistêmicas. A primeira, que é essencialmente sistêmica e pioneira, refere-se à Teoria Geral dos Sistemas (TGS), proposta por Ludwig von Bertalanffy, a qual abriu caminho para um pensamento científico integrador. A segunda, mais específica ao tema da presente pesquisa, diz respeito à perspectiva geomorfológica de Thom sobre o papel exercido pelos fatores geofísicos, geomórficos e biológicos responsáveis pela distribuição, desenvolvimento e manutenção dos manguezais. Embora o autor não utilize a terminologia sistêmica, ela fica implícita na hierarquia dos fatores citados. Finalmente, amarrando as duas perspectivas acima citadas, utiliza-se a estrutura hierárquica ou visão hierárquica idealizada por Schaeffer-Novelli e Cintrón, a qual visualiza o desenvolvimento dos manguezais, bem como seu manejo, em uma “hierarquia aninhada” onde se situam, em um primeiro nível, os grandes ecossistemas marinhos, perpassando por especificidades regionais de uma linha de costa, detalhando-as cada vez mais, à medida que diminui a escala espacial de análise.
Soma-se a Teoria da Hierarquia como fundamento integrador das teorias acima mencionadas, cujo desenvolvimento possibilitou uma visão totalitária do pensamento científico dito “holístico”.
A busca por uma reorientação da ciência possibilitou o encontro de uma teoria que atendesse desde a Física subatômica às ciências sociais: a Teoria Geral dos Sistemas (TGS). Esta teoria, bem como o conceito de sistema, tem uma longa história.
Segundo Bertalanffy (1975), embora o termo “sistema” propriamente dito não tivesse sido empregado, a história deste conceito inclui muitos nomes ilustres. O primeiro foi o cardeal Nicolás de Cusa, com sua clara visão das limitações e complementaridade do conhecimento humano, concebia a construção do mundo refletida em um jogo abstrato habilmente construído sob a visão sistêmica. Leibniz usou o termo sistema sob a denominação de “Filosofia Natural”. Göethe aparece aqui não somente como o fundador da morfologia em Biologia, mas também enquanto criador de uma filosofia dinâmica da natureza. Da mesma forma, a obra de Spengler “La decadencia de Occidente”, que trata do relativismo epistemológico histórico foi irrefutável, especialmente na Física.
As “gestalten físicas” e os fenômenos biológicos e psicológicos, desenvolvidos em 1924 por Köhler, indicavam tentativas de obras no campo da Teoria Geral dos Sistemas, embora não tratassem do problema em toda sua generalidade. O mesmo pesquisador, em 1927, levantou o postulado de uma teoria dos sistemas destinada a elaborar as propriedades mais gerais dos sistemas inorgânicos comparadas às dos orgânicos.
De acordo com Klir (1986), embora a noção de sistema seja antiga, o conceito de sistema geral e a idéia da teoria geral dos sistemas são relativamente recentes. Ludwig Von Bertalanffy a esboçou pouco antes da Segunda Grande Guerra Mundial, mas a mesma só teve publicidade quando se formou a Sociedade para o Progresso da Teoria Geral dos Sistemas em 1954, que mais tarde foi chamada de Sociedade para a Investigação em Sistemas Gerais.
Segundo Bertalanffy (1975), foi a obra de Lotka, escrita em 1925, que mais se aproximou do objetivo e devem-se a ele algumas formulações básicas do conceito geral dos sistemas. Embora sendo estatístico, estava mais interessado nos problemas biológicos do organismo individual, concebendo as comunidades como sistemas, ao mesmo tempo considerando o organismo individual como uma soma de células.
Entretanto, só recentemente se tornou visível a necessidade e a exeqüibilidade da abordagem dos sistemas. A necessidade resultou do fato de o esquema mecanicista das séries causais isoláveis e de o tratamento por parte terem se mostrado insuficientes para atender aos problemas teóricos, especialmente nas ciências bio-sociais, e aos problemas práticos propostos pela moderna tecnologia. A viabilidade resultou de várias novas criações – teóricas, epistemológicas, matemáticas, etc. – que, embora ainda no começo, tornaram progressivamente realizável o enfoque dos sistemas. (BERTALANFFY, 1975: 28-29).
Bertalanffy (1975) advogava uma concepção organísmica, na Biologia, que enfatizasse a consideração do organismo como totalidade ou sistema e visse o principal objetivo das ciências biológicas na descoberta dos princípios de organização, em seus vários níveis.
Há cerca de 80 anos, Bertalanffy iniciou sua carreira científica, quando então a Biologia achava-se empenhada na controvérsia mecanicismo-vitalismo. Contrários a esse ponto de vista, ele e outros cientistas foram levados a pensar no “organísmico”, que significa que os organismos são coisas organizadas e que eles, enquanto biólogos, tinham que descobrir em que consistiam.
Nos anos vinte, von Bertalanffy – que também estava com seus vinte anos – falava de uma nova perspectiva metodológica que se chamava «biologia organísmica». Tentando explicá-la, referia-se a ela como a «teoria sistêmica do organismo». Mais tarde (1947) reconhecia que «existem modelos, princípios e leis aplicáveis a sistemas generalizados ou a suas subclasses independentemente de sua natureza, do caráter dos elementos componentes e das relações ou «forças» existentes entre eles. Postulamos uma nova disciplina chamada Teoria Geral de Sistemas». (LASZLO, 1974: 14 – tradução nossa).
A Teoria Geral dos Sistemas, enunciada e definida por Bertalanffy, encontrou muita resistência no meio científico e acadêmico. Entretanto, como se sabe, toda teoria revolucionária e unificadora encontra, inicialmente, uma forte tendência à rejeição, pois derruba pressupostos, dogmas e teorias já assimiladas pela sociedade.
Esforcei-me por executar este programa organísmico em vários estudos sobre o metabolismo, o crescimento e a biofísica do organismo. Um passo nessa direção foi a chamada teoria dos sistemas abertos e dos estados estáveis, que é essencialmente uma extensão da físico-química, da cinética e da termodinâmica convencionais. Aconteceu, porém, que não pude deter-me no caminho que havia tomado e assim fui conduzido a uma generalização ainda mais ampla, a que dei o nome de Teoria Geral dos Sistemas. (BERTALANFFY, 1975: 127).
Na citação abaixo Bertalanffy demonstra sua decepção frente à opinião dos cientistas da época a sua teoria: A finalidade da teoria geral dos sistemas foi recebida com incredulidade, sendo julgada fantástica ou presunçosa. Além do mais – objetava-se – a teoria era trivial, porque os supostos isomorfismos eram simplesmente exemplos do truísmo segundo o qual a matemática pode aplicar-se a todas as espécies de coisas e, portanto, não tem maior peso do que a “descoberta” de que 2+2=4 é igualmente verdadeira para maçãs, dólares e galáxias. Dizia-se também que era uma teoria falsa e desnorteadora, porque as analogias superficiais – como na famosa similitude entre a sociedade e um “organismo” – escamoteiam as diferenças reais, assim conduzem a conclusões erradas e mesmo moralmente inaceitáveis. Ou, ainda uma vez, dizia-se que a teoria alegava “irredutibilidade” dos níveis superiores aos inferiores era evidente em vários campos, tais como na redução da química aos princípios físicos ou dos fenômenos da vida à biologia molecular. (BERTALANFFY, 1975: 31-32). Segundo Laszlo (1974), houve também um certo caos a respeito do termo em Inglês que provocou muitos desentendimentos. A teoria foi criticada com o rótulo de pseudociência, que não era senão uma exortação a considerar as coisas de modo holístico. O conceito original da Teoria Geral dos Sistemas era o de Allgemeine Systemtheorie (o Lehre). “Theorie” (o Lehre), o mesmo que Wissenchaft, tem em Alemão um significado mais amplo que as palavras inglesas “theory” e “science”. Uma Wissenchaft é qualquer corpo organizado de conhecimentos, incluindo as Geisteswissenchaften, que não podem ser consideradas em Inglês como verdadeiras ciências. O termo “Theorie” aplica-se a qualquer conjunto de conceitos sistematicamente apresentados, sejam empíricos, axiomáticos ou filosóficos. Lehre possui o mesmo significado, mas não é possível traduzi-lo com propriedade e seu equivalente mais próximo, “enseñanzas”, soa a dogma e arcaísmo. Portanto, quando von Bertalanffy fala de Allgemeine Systemtheorie é congruente com a idéia de estar propondo uma perspectiva nova, uma nova forma de fazer ciência, ainda que não com a interpretação de que somente o fez a “Teoria Geral dos Sistemas” para significar que é uma teoria científica de valores gerais.
Entretanto, as objeções feitas à teoria foram aos poucos sendo derrubadas e pelo conteúdo da carta do economista K. Boulding a Bertalanffy, datada de 1953, percebe-se que a Teoria Geral dos Sistemas começava a ter uma aceitação maior por parte da comunidade científica: Parece que cheguei a uma conclusão muito semelhante à sua, embora partindo da Economia e das Ciências Sociais e não da Biologia, a saber, que existe um corpo daquilo que chamei “teoria empírica geral”, ou “teoria geral dos sistemas”, em sua excelente terminologia, com larga aplicação em muitas disciplinas diferentes. Tenho a certeza de haver muita gente em todo o mundo que chegou essencialmente à posição que temos, mas estão amplamente espalhadas e não se conhecem umas às outras, tão grande é a dificuldade de atravessar as fronteiras das disciplinas. (BERTALANFFY, 1975: 32).
Desde 1947 Bertalanffy requintou, modificou e aplicou os conceitos da Teoria Geral dos Sistemas, tendo-a difundindo por meio da publicação “General Systems Yearbook”. Muitos cientistas sociais estudaram, compreenderam e aplicaram a teoria dos sistemas. Em muitas áreas a aceitação foi relutante, mas nem por isso, em outras, menos empolgante.
Quanto ao significado da Teoria Geral dos Sistemas, não obstante a subdivisão da ciência em várias disciplinas, cada vez mais especializadas, observa-se, pelo exposto acima, a busca por um referencial que a unifique, que permita ao físico se comunicar com o biólogo ou com o cientista social, pois, independente do escopo de cada disciplina, problemas e concepções semelhantes surgem em campos amplamente diferentes.
Nesse sentido, utilizando um conceito citado por Bertalanffy (op.cit.), “uma lei exponencial de crescimento aplica-se a certas células bacterianas, a populações de bactérias, de animais ou de seres humanos e ao progresso da pesquisa científica, medida pelo número de publicações em genética ou na ciência em geral.” (p. 56).
As entidades acima citadas são completamente diferentes, contudo a lei matemática é a mesma. Há sistemas de equações que descrevem a competição das espécies na natureza, na Físico-química e na Economia.
Segundo Bertalanffy (op.cit.), a Teoria Geral dos Sistemas seria um instrumento útil capaz de fornecer modelos a serem usados em diferentes campos e transferidos de uns para os outros, salvaguardando-os do perigo das analogias vagas e superficiais. A correspondência biunívoca que trata a teoria dos sistemas é muito mais que uma analogia, na medida em que permite poderem ser aplicadas abstrações correspondentes e modelos conceituais a fenômenos de diferentes naturezas, residindo nesse fato o significado da Teoria Geral dos Sistemas.
No passado, a ciência investigava e procurava explicar os fenômenos reduzindo-os à unidades elementares independentemente umas das outras. Atualmente, portanto, é na investigação da totalidade que reside o maior propósito da Teoria Geral dos Sistemas, embora ainda seja considerado um conceito vago e nebuloso, em alguns ramos da ciência.

Há várias passagens marcantes no livro Teoria Geral dos Sistemas, escrito em 1968 por Bertalanffy e traduzido para o Português em 1975, onde o autor escreve de forma emocionante sobre a unidade da ciência, extrapolando o cômputo da mesma. Dentre elas o autor escreve que possivelmente o modelo do mundo como uma grande organização ajude a reforçar o sentido de reverência pelos seres vivos, que quase perdemos nas últimas sanguinárias décadas da história humana.
Nesse mesmo sentido, Churchman (1972), mostra a mesma preocupação quanto à unidade da ciência, quando se refere que a fome do mundo, a miséria e o esgotamento dos recursos poderiam ser resolvidos por meio do interesse científico global.
Quanto aos principais propósitos da Teoria Geral dos Sistemas, há uma tendência geral no sentido da integração nas várias ciências, naturais e sociais, cuja centralização repousa na teoria dos sistemas. Portanto, esta mesma teoria pode ser um importante meio para alcançar uma teoria exata nos campos não físicos da ciência. Desenvolvendo princípios unificadores que atravessem “verticalmente” o universo das ciências individuais, aproxima-se da meta da unidade da ciência que, finalmente, pode conduzir à integração muito necessária na educação científica.
A Teoria Geral dos Sistemas foi postulada por alguns motivos que, segundo Bertalanffy (1975), foram a preocupação com os campos das ciências biológicas, sociais e do comportamento que romperam com o reducionismo da Física, exigindo uma nova tecnologia que buscasse a generalização de conceitos científicos e modelos.
Problemas recorrentes nos campos das ciências biológicas, sociais e comportamentais pela “ciência clássica”, tais como os problemas dos organismos e da própria natureza, eram totalmente desprezados, considerados ilusórios ou metafísicos. O aparecimento de modelos representando os aspectos de interação entre as variáveis da natureza, implicou a introdução de novas categorias no pensamento e na pesquisa científica.
A resolução de problemas no campo das ciências que apresentavam múltiplas variáveis, tais como a Biologia, exigia novos instrumentos conceituais para tratar os problemas da complexidade organizada. Os modelos teóricos, de onde decorrem os instrumentos, tinham que ser interdisciplinares, pois transcendem os departamentos convencionais da ciência e se aplicam a fenômenos em diversos domínios.
É importante ressaltar a preocupação do autor acima citado com a aplicação da Teoria Geral dos Sistemas nas ciências humanas, examinando a aplicação da concepção sistêmica a perspectivas mais amplas, isto é, aos grandes grupos humanos, sociedades e à própria humanidade em sua totalidade, pois, segundo ele, o problema da história humana avulta com a mais ampla aplicação possível da ideia de sistema.

Starting date: 2019-10-20
Deadline (months): 24

Participants:

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Coordinator * Cláudia Câmara do Vale
Student Doctorate * Victor Silveira Massini
Student Doctorate * Marta Leite Oliver Batalha
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